Sintomas e Alterações Comportamentais na Criança – Impacto Familiar

Dos sinais da criança à compreensão da dinâmica familiar

Quando uma criança começa a manifestar alterações que persistem no tempo, nem sempre a resposta está apenas naquilo que ela sente ou faz. Neste caso, foi necessário ampliar o olhar e compreender também o contexto relacional em que esses sinais estavam a surgir.

Contexto

Aos 11 anos, apresentava medos frequentes — da morte, de dormir, de sonhar e de que “algo mau fosse acontecer” — acompanhados por ansiedade, tremores e aceleração do coração.

Em casa chegava frequentemente cansado e com menor disponibilidade para atividades. Começou a afastar-se do ténis e do basquetebol e, na escola, surgiram queixas de maior irrequietude e dificuldade em manter a atenção, apesar de continuar a ser um bom aluno.

A mãe sentia-se cada vez mais preocupada e questionava se estaria a agir da forma certa, relacionando inicialmente estas alterações com a pandemia, o aumento de peso e possíveis dificuldades de autoestima.

Objetivos do Acompanhamento

Neste caso, os objetivos precisaram de ser definidos em três frentes interligadas: os pais, a criança e a relação entre os três.

Com os pais, procurou-se compreender dinâmicas do casal, prioridades familiares, alterações de rotina, medos, crenças e acontecimentos relevantes das famílias de origem.

Com o filho, o foco esteve na compreensão dos seus medos, da forma como percecionava aquilo que estava a viver e da relação com os pais.

Em conjunto, procurou-se observar padrões relacionais, corporais e não verbais, criando maior compreensão sobre aquilo que podia estar a contribuir para a expressão dos sintomas.


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Abordagens e Recursos Utilizados

Neste acompanhamento, o trabalho não ficou centrado apenas na criança. Pais e filho foram envolvidos em momentos diferentes, permitindo observar o problema individualmente e dentro da dinâmica familiar.

O resultado

Ausência de sinais de ansiedade

A própria criança deixou de relatar os sinais de ansiedade que anteriormente sentia, nomeadamente tremores, aceleração do coração e estados de maior ativação.

Medos praticamente ultrapassados

Em cerca de dois meses, deixou de apresentar a extensa lista de medos que anteriormente fazia parte do seu quotidiano. O medo do escuro foi o único que se manteve, já sem interferir com o sono, passando a adormecer apenas com uma pequena luz de presença.

Alegria e dinamismo recuperados

Voltou a apresentar a boa disposição que a caracterizava, com mais energia, iniciativa e vontade de fazer coisas, retomando progressivamente o interesse pelas atividades e pelo convívio com os amigos.

Maior proximidade e autonomia na relação com o pai

Passou a procurar e a viver mais momentos a sós com o pai, sentindo-se mais autónomo, confiante e disponível para essa relação, sem a mesma culpa ou necessidade de ter a mãe presente. As atividades partilhadas entre ambos, incluindo os passeios de bicicleta, tornaram-se mais frequentes e significativas.

Maior confiança nas próprias escolhas

Passou a expressar com mais segurança aquilo de que gostava e o que não queria. Decidiu deixar o ténis, uma atividade que a mãe considerava importante, mas de que ele não gostava, e manteve o basquetebol, que apreciava e partilhava também com o pai.

Comportamento escolar estabilizado

A irrequietude que anteriormente gerava preocupação deixou de se destacar no contexto escolar. Não voltaram a existir chamadas de atenção por parte dos professores, mantendo um funcionamento mais ajustado ao seu momento de desenvolvimento.

Maior confiança no papel de mãe

A mãe identificou um padrão de superproteção, cuidado excessivo e exigência, associado às perdas gestacionais anteriores, à maternidade tardia, às dúvidas sobre a capacidade de cuidar e a dinâmicas da família de origem. A partir dessa compreensão, deu mais espaço à autonomia do filho e à participação do pai, retomando também o autocuidado e a atividade profissional.