Burnout e Crise na Relação Conjugal

Da exaustão ao reencontro consigo e com a relação

Quando quase toda a energia está dirigida para cuidar e responder às necessidades dos outros, pode deixar de existir espaço para perceber o que está a acontecer dentro de nós. Neste acompanhamento, foi necessário compreender como a sobrecarga, os vínculos familiares e a forma como se tinha organizado em torno dos filhos a estavam progressivamente a afastar de si própria e da relação conjugal.

Contexto

Uma mulher de 41 anos, casada e mãe de dois filhos de 4 e 9 anos, procurou acompanhamento num estado de profunda exaustão. Sentia um cansaço físico e emocional persistente, chorava com frequência e descrevia-se como desesperada perante a forma como estava a viver o quotidiano.

Referia também grande irritabilidade, falta de paciência e uma hipersensibilidade constante, reagindo por vezes de forma desproporcionada a pequenas situações. Tinha consciência dessas reações e percebia que já não se reconhecia na forma como estava a responder.

Grande parte da sua atenção e energia estava dirigida para os filhos, ficando pouco espaço para si própria e para a relação de casal. Em paralelo, a perda de intimidade e o medo de perder o marido tornavam-se uma fonte crescente de angústia, num momento em que sentia já não ter recursos para continuar a responder a todas as exigências da mesma forma.

Objetivos do Acompanhamento

Mais do que recuperar do estado de exaustão, precisava de diminuir a sobrecarga, compreender a origem da irritabilidade e da hipersensibilidade e voltar a criar espaço interno para si própria, sem continuar a funcionar apenas em resposta às necessidades dos outros.

O acompanhamento teve como principais focos reforçar a autorregulação, reorganizar prioridades e responsabilidades, recuperar o autocuidado, compreender o seu posicionamento enquanto mulher, mãe, esposa e filha, trabalhar a relação com a mãe e fortalecer a relação conjugal, nomeadamente através de uma comunicação mais clara e da recuperação da proximidade e intimidade no casal.


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Abordagens e Recursos Utilizados

Neste acompanhamento, as diferentes abordagens foram articuladas para regular o estado de exaustão e reatividade, compreender os padrões internos e familiares que sustentavam a sobrecarga e apoiar novas formas de se posicionar consigo própria, na relação conjugal e na família.

O resultado

Mais calma, serenidade e menos necessidade de controlo

Aprendeu a reconhecer os sinais de sobrecarga antes de chegar ao limite e, nesses momentos, a parar e regular a respiração, através de práticas de coerência cardíaca. Passou a sentir-se mais calma e serena, com menor necessidade de controlar tudo e menos irritabilidade no quotidiano.

Voltou a cuidar de si e a reconhecer-se enquanto mulher

Começou a reservar tempo para si, a retomar cuidados pessoais e a praticar ténis, uma atividade que lhe dava prazer. Voltou a valorizar a própria imagem e a sentir-se presente enquanto mulher, para além dos papéis de mãe e esposa.

Recuperou a proximidade e a intimidade com o marido

À medida que se sentiu melhor consigo própria e mais confiante de que estava a fazer o seu melhor com os filhos, reconheceu o quanto tinha negligenciado a relação. Passou a dar mais espaço ao casal, recuperando proximidade, intimidade e sedução. Começou também a fazer planos com o marido para além das responsabilidades familiares, sentindo-se novamente mais ligada à relação.

Passou a fazer escolhas mais alinhadas com os seus próprios valores

Percebeu que queria construir a sua família a partir de valores diferentes dos da família de origem, mas evitava fazê-lo para não criar conflitos, afastar-se dos pais ou sentir que não era uma “boa filha”. A relação com a mãe tornou-se mais equilibrada, reduziu a influência dos pais nas suas escolhas e passou a ocupar com maior clareza o seu lugar de filha e de esposa.

Compreendeu a sensação de perda na relação

Reconheceu que a sensação recorrente de poder perder o marido não surgia apenas da relação presente. A avó materna perdeu precocemente o companheiro quando ainda tinha filhos pequenos e a avó paterna ficou sem o marido depois de este emigrar e não regressar. A relação distante entre os próprios pais ajudou-a também a reconhecer referências familiares marcadas pela ausência e pelo afastamento conjugal que influenciavam a forma como vivia o casamento.

Deu a cada vínculo o seu lugar

Percebeu que a desaprovação da irmã gémea relativamente ao marido a colocava num conflito de posições, como se precisasse da sua permissão para sustentar plenamente a escolha do companheiro. Ao diferenciar os dois vínculos, conseguiu dar a cada um o seu lugar — à irmã enquanto irmã e ao marido enquanto companheiro — deixando de os viver como se competissem pelo mesmo lugar.

As mudanças refletiram-se também nos filhos

O filho mais novo passou a dormir no próprio quarto, ganhando maior autonomia. O mais velho, que anteriormente permanecia em silêncio perante situações de abuso emocional na escola, começou a expressar o que sentia e a posicionar-se com maior confiança.